22 de novembro de 2012

Há quem ache que ser estivador é uma brincadeira

Como o deputado do CDS que queria fazer um concurso para ver quem carregava um contentor mais depressa. Caricaturas à parte, aqui ficam algumas notas do que me transmitiram os sindicatos de estivadores e trabalhadores portuários com quem reuni:

1. Os portos dão lucro (em 2011 entregaram aos cofres do Estado mais de 10 milhões de euros) e a sua atividade está a crescer; não há nenhum problema de competitividade dos portos.

2. O governo está a preparar uma alteração laboral que torna regra o trabalho eventual não qualificado e mantém um pequeno grupo de trabalhadores com direitos.

3. Com a proposta do governo o trabalho suplementar vai ser pago mais caro, porque passa a ser calculado à hora e não por turno; mas mais trabalhadores precários, a quem nunca se paga trabalho suplementar, serão explorados.
4. Os estivadores e trabalhadores dos portos em greve não querem ser um pequeno grupo de privilegiados num mundo de precários explorados e é por quem está excluído que estão a lutar.

6. Há portos em Portugal onde só há trabalhadores eventuais ou em que os precários representam mais de 70% do total dos trabalhadores.

7. Os estivadores não querem acumular trabalho suplementar, mesmo que ganhem mais com isso. Querem, como toda a gente, poder estar com a família e os amigos. E querem que sejam contratados mais trabalhadores, criando emprego. Não tem sentido tanta gente sem trabalho e estes trabalhadores fazerem turnos de 14, 20 e mais horas

8. Os salários dos estivadores não são tão atrativos como circula na net: ficam entre 550 e 1700 euros. Os salários sobem com o muito trabalho suplementar que é exigido a estes trabalhadores.

9. Para ser estivador e progredir na carreira é necessário ter o 12º ano, fazer exames médicos, psicotécnicos e vocacionais, e fazer formação específica, tão mais exigentes quanto a especificidade técnica dos equipamentos que operam.

10. A segurança no trabalho deixa muito a desejar e os acidentes de trabalho não são raros. Os trabalhadores precários não só têm mais acidentes, porque têm menos acesso a formação especializado, como, quando têm acidentes, são dispensados.

11. A greve dos estivadores é só ao trabalho para lá de um turno de 8 horas. Ou seja, fazem oito horas de turno todos os dias e ainda asseguram, no resto do dia (os portos trabalham dia e noite), os serviços mínimos. Esta greve é um problema para a economia porque os portos assentam na exploração destes trabalhadores.

12. Acabar com a greve e proteger a economia é simples: basta o governo recuar na sua proposta aberrante de regresso às praças de jorna.
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4 comentários:

Albino M. disse...

Atenção, falta o ponto 5.

EstivadoresAveiro disse...

Caro Albino,
nesta postagem, o ponto 5 não esta disponível na origem da publicação do artigo,talvez tenha sido má marcação.
Mas obrigado pelo comentário.

Cumporimentos

O.Miguel08

raul magalhães disse...

Para os portugueses de "primeira", que é como esses meninos estivadores se devem achar! Estão completamente desligados da realidade do país em que vivem e nós, o resto, sobrevive! Querem ficar à margem do sofrimento nacional que estamos a sentir na pele, ficando isentos dos sacrifícios do resto dos portugueses! Parabéns! Conseguiram fechar mais uma PME, no caso, a PME onde eu trabalhava, uma pequena empresa, que desde 2010 começou a exportar e para os mercados emergentes, fora da união (pouco) europeia. Uma empresa que tinha um controlo financeiro muito rigoroso, deixando pouca margem de manobra para aumento de custos com a logística para a exportação, fruto de um empenho em investir na sua modernização. A razão do fecho é simples, por termos que encontrar uma alternativa face à greve, cada contentor saía-nos mais caro aproximadamente 600Euros. Satisfeitos?! Um dia destes vão descarregar barcos de pesca quando afugentarem o trânsito para outros países.
Afinal de contas, quais são os argumentos desta greve estúpida? Se não é intenção desta lei reduzir a remuneração? É sim, deixar de considerar trabalhadores portuários! Pois! Está visto! Argumentos não existem! Mas objetivos sim! Afundar Portugal! A extrema esquerda não serve! Assim como a extrema direita, nem a esquerda moderada, nem a direita moderada, nem os centristas, enfim, não me consigo rever em nenhum dos que povoam a "nossa" assembleia da "reprivada".

EstivadoresAveiro disse...

O comentário do sr "Raul Magalhães" que diz que a empresa onde trabalhava, fechou por os estivadores terem usado de um direito que vem na lei Portuguesa deveria atribuir as responsabilidades a quem por imposição de uma lei sem justiça nos quer fazer o mesmo. E se não tivesse-mos lutado pelos nossos postos de trabalho o que acontecia agora era eu estar a lamentar-me para o sr Raul que tinha perdido o emprego. As greves afetam sempre alguém e por vezes não quem se quer atingir, o sr Raul ficaria mais contente que fosse eu que estive-se a perder o emprego (coisa que ainda pode acontecer) mas uma coisa eu lhe garanto não fiquei contente por a minha tentativa de resolver um problema de uma classe trabalhadora o tenha prejudicado. Mas aproveito para lhe dizer que se existe alguém que está a fazer sacrifícios somos nós porque o que este governo nos propôs foi que ficasse-mos bem para que todos os que depois de nos viessem trabalhassem como escravos e isso não aceitámos. Uma vez que diz que esteve ligado ao sector deve conhecer a realidade mas não conhece a lei porque o que esta lei vem fazer é tirar a quem trabalha para dar a quem detém o monopólio nos portos os grandes grupos económicos. Se um dia conseguir uma fatura portuária detalhada, sobre os custos de uma operação portuária ai poderá ver que os estivadores não são o problema. Agora para terminar se me perguntar se concordo com as greves também partilho da sua opinião não deveriam existir, porque prejudicam pessoas que não tem culpa, mas esta poderia ter sido evitada se o governo ouvisse os trabalhadores.
Estivador25