14 de novembro de 2012

A greve de uns e a dos outros ( Opinão )

No final do dia que a CGTP considera "inédito" (há paralisações anunciadas também na Grécia, Espanha e Itália), a discrepância dos números da adesão à greve geral decretada para esta quarta-feira voltará a marcar as conclusões da jornada de protesto. Até aqui, nada de novo. É sempre assim desde que somos democracia.
Acontece que num período em que o torniquete da austeridade aperta - e em muitos casos já asfixia - tantas e tantas famílias portuguesas, há alguns fatores a considerar quando se fizer o empolamento ou depreciação dos números desta paragem feita para protestar contra a degradação da qualidade de vida e em defesa do trabalho. É certo que nunca a sociedade portuguesa terá estado tão unida no coro de protestos visando as políticas de agravamento fiscal do Governo de Pedro Passos Coelho. Basta andar na rua, nos transportes públicos, parar nas filas dos centros de emprego ou olhar o recibo do salário para reconhecer esta evidência. Em manifestações passadas de protesto contra estas políticas de delapidação do estado social, os portugueses já demonstraram a sua força coletiva. Até porque nunca como agora estiveram em causa serviços que queremos pilares do nosso futuro, como a escola, os serviços de saúde ou o trabalho. Mas um dia de greve custa dinheiro. E quem atingiu níveis degradantes de vida, perdeu a casa ou já viu a família passar fome pode não poder prescindir desse aparentemente insignificante dia de salário. Esses são, provavelmente, os que mais razões terão para exercer esse direito universal das sociedades democráticas. Outros há para quem esta greve será apenas mais uma.

Adivinha-se que os 200 estivadores dos portos de Aveiro, Figueira da Foz, Lisboa e Setúbal que têm mantido paralisações desde agosto voltem a parar. Dizem-se injustiçados pela alteração legislativa do Governo que os pretende colocar, tal como a todos os outros trabalhadores, sob a alçada da Lei Geral do Trabalho, acabando, assim, com um regime de exceção que condiciona o acesso àquela carreira. Quando outras empresas reduzem a carga horária de trabalho para promover a manutenção do emprego, na estiva cumprem-se horas extraordinárias que permitem aos trabalhadores auferir rendimentos muito superiores à sua base salarial.
Por tudo isto, a luta na estiva não aparenta ser apenas uma reivindicação egoísta de uma classe sedenta dos seus privilégios que, sendo legítimos, carecem de moralidade quando a todos se pedem esforços hercúleos. A sistemática paralisação de uma parte dos portos nacionais (e o consequente desvio mercante para Espanha) é também a hipoteca das nossas exportações e, consequentemente, do trabalho esforçado de muitos dos que legitimamente vão parar hoje.
jn 

1 comentário:

Fernando Gomes disse...


Caros Amigos e Companheiros:

Para meditar seriamente.


Saudações Sindicais

FGOMES