Entre as dezenas de embarcações ancoradas na marina da Horta, na ilha do Faial, o bergantim
3 Hombres
, com os seus 32 metros de comprimento e altos mastros, chama a atenção
de quem passa. À primeira vista, parece um navio deslocado no tempo, que
remete para a época das epopeias marítimas, mas o seu objetivo é bem
atual.
Concebido pelo austríaco Andreas Lackner e pelos holandeses Jorne
Langelaan e Arjen Van der Veen, o projeto 3 Hombres pretende alertar
para as "brutais emissões de gases tóxicos provocadas pela marinha
mercante contemporânea". É, atualmente, o único navio cargueiro sem
motor a realizar transporte internacional de mercadorias, numa lógica
não só de comércio justo mas também de transporte justo, um conceito que
pretendem disseminar por todo o mundo.
"Quando chegamos a um novo destino, a primeira impressão dos
habitantes é que somos um bando de hippies com ar de piratas mas, depois
de explicarmos o nosso projeto, tudo muda", afirma o capitão Lammert
Osinga, 35 anos. E já se começou a espalhar a palavra, como constataram
ao aportar pela primeira vez em Manaus, no Brasil. "Havia muita gente à
nossa espera, para nos mostrar produtos que poderíamos trazer para a
Europa", recorda.
A embarcação, com capacidade para 35 toneladas de carga, foi
construída de raiz e à mão, segundo os métodos tradicionais, por mais de
100 voluntários de 25 países.
Opera todo o ano entre a Europa, as ilhas do Atlântico, Caraíbas e
América. Este ano, expandiu a sua rota até à Noruega, de onde trouxe
bacalhau para Portugal. Pelo caminho, passou também por França, a fim de
carregar barricas de vinho biológico, que irão envelhecer nos seus
porões.
Em paralelo com o transporte de mercadorias, o 3 Hombres funciona
como navio-escola. À tripulação profissional de sete elementos juntam-se
oito estudantes, que começam por aprender o básico da marinharia à
vela. Os alunos iniciam o programa no "degrau mais baixo da escada",
como refere Lammert, e, depois, vão evoluindo de acordo com o tempo a
bordo. No final do curso, recebem um certificado, "que pode ir de
marinheiro comum a capitão".
Multiplicar o exemplo
Além de dar nome ao navio, a marca 3 Hombres expandiu-se para o
sector alimentar, através da comercialização de chocolate e rum,
adquiridos a produtores locais, nas Caraíbas, de acordo com as regras do
comércio justo, e, depois, vendidos na Europa, onde se têm revelado um
sucesso especialmente o rum de 15 anos, amadurecido a bordo, em barricas
de carvalho, durante cinco meses.
As receitas servem para alargar a frota: em construção está uma
segunda embarcação, batizada de Nordlys, que deverá começar a operar
ainda este ano. "Como não temos motor e navegamos apenas com recurso ao
vento, já somos uma embarcação famosa no mundo dos veleiros, mas o
objetivo é mostrar ao maior número de pessoas que é possível mudar, pois
só teremos impacto se houver uma multiplicação de embarcações
semelhantes", explica o capitão.
Na
Horta, ao capitão holandês Lammert Osinga e à tripulação de oito
estudantes, juntou-se a portuguesa Paula Luís, que pretende criar um
projeto semelhante: Transporte Justo-Açores |
DR |
O local onde poderá surgir um conceito semelhante é precisamente a
Horta. "Queremos dotar os Açores de um navio à vela que seja, ao mesmo
tempo, cargueiro e barco-escola, de forma a expandir o projeto global de
transporte justo", explica a jurista Paula Luís, 36 anos, que, em
conjunto com a psicóloga Sónia Pó, 41, e o arquiteto paisagisto André
Santos, 29, pretendem avançar com o
Transporte Justo-Açores
. Desenvolvido em parceria com o 3 Hombres, irá operar entre as ilhas do Faial e do Pico.
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